Olissippo Lapa Palace: Ir para fora cá dentro
Oje - o Jornal Económico
Vicente Themudo de Castro
O Conde de Valenças transformou este espaço num palácio, em 1877. Agora é
um hotel, o Olissippo Lapa Palace, em Lisboa.
Subir a rua Pau da Bandeira, em Lisboa, é uma viagem aos sonhos, pois
são as casas onde todos ambicionávamos viver ou ter vivido, agora
transformadas em Embaixadas, Fundações, Provedorias, algumas
particulares e uma que todos podemos e devemos visitar: o Olissipo Lapa
Palace.
A entrada é em calçada portuguesa, com uma trança azul a entrelaçar um
sol "LAPA", e protegida por um portão metálico, que em grades finas
revela a fachada de um palácio do Séc. XIX.
Depois de uma história de tristezas entre pai e filhos, o Visconde de
Porto Covo decidiu vender a sua casa ao Conde de Valenças em 1877, que a
transformou num esplendoroso palácio.
Com uma vista privilegiada sobre a cidade velha e o rio Tejo, tudo foi
pensando nestes dois elementos como fundo, a decoração aristocrata e
linda contou ainda com as pinturas de Rafael Bordalo Pinheiro e o seu
irmão Columbano.
As salas repletas de azulejos, madeiras, pinturas e pormenores de encher
o olho foram preservadas, e algumas das obras foram substituídas por
cópias que nada ofendem a história ou a técnica.
Assim, e depois de entregar as chaves ao porteiro, que prontamente
tratou das minhas malas e arrumação do veículo, iniciei a minha viagem
pelas histórias que o palácio vai revelando.
O lobby de cor dourada, chão em mármore e tectos trabalhados, é o
primeiro a revelar um segredo, pois foi por aqui que muitos aristocratas
e nobres pessoas passaram para dar vida ao palácio.
Fico impressionado com a simplicidade luxuosa desta primeira sala.
A frente revela uma porta de vidro, onde um biombo protege e dá
privacidade ao restaurante Lapa, a esquerda tem um longo corredor que
vai até ao fim da ala nova construída em 2002.
A direita divide-se entre a sala do piano, transformada em bar, e a sala
dos fumadores, com uma televisão para quem não gosta de perder os jogos
do Mundial.
Iniciei a minha viagem para o quarto, foi-me atribuído o 550, um piso
acima do lobby. Uma sala e um quarto, e uma varanda que se estendia
pelos dois. A vista não poderia ser melhor, abrangendo desde um bom
bocado da esquerda do castelo, ao prolongamento dos estaleiros do grande
Alfredo da Silva (antigo proprietário Lisnave).
O quarto, decorado de forma sóbria, com apontamentos de época e os luxos
da era actual, era mais espaçoso que os standard, mas a decoração e
luxos eram iguais para todos.
Assim, que pude dei um passeio pelos jardins, desci ao 4ª andar e,
passando pelos corredores com algumas lojas, encontrei uma porta que me
dava passagem para a varanda, mesmo abaixo do meu quarto.
É fantástico o facto de, no centro de Lisboa, haver um jardim tão
bonito. Ultrapassada a varanda e descidas as escadas, encontro uma
sorridente pata e a sua cria, que fizeram deste paraíso a sua casa
temporária. O tempo não criou vontade de dar um mergulho na longa
piscina, de qualquer forma não impediu os marrecos de lá se refrescarem.
O relvado e o perímetro do palácio ainda albergam um pequeno lago em
forma de riacho, cheio de tartarugas e peixes laranjas.
Ainda é cedo, vou dar um mergulho na piscina interior e fazer uma
massagem no SPA.
Agora no 3º andar dou dois passos de saída do elevador e entro no local
onde o físico e o espírito são tratados e acarinhados de forma
agradável.
Um ginásio, 3 salas de massagens, uma dupla e outra para shiatsu. Além
destas ainda tem uma para tratamentos estéticos faciais e outra que
alberga o Jet Wash, equipamento que permite fazer vários tratamentos com
água, incluindo o tão cobiçado duche vichy.
Está quase a chegar a hora de jantar, e a minha mulher ficou feliz de
poder usar o cabeleireiro do hotel, nem sempre está lá, mas com um
telefonema e uma reserva, a cabeleireira aparece, abre a porta e faz a
sua magia.
A nossa mesa estava reservada, e era mesmo ao lado do biombo, metade em
sofá, metade em cadeiras - optámos por nos sentarmos na metade com mais
almofadas.
O restaurante Lapa tem uma carta que se divide em quatro especialidades
mediterrânicas, 6 entradas, 6 sopas e pastas, 4 peixes, 4 carnes e uma
grande variedade de sobremesas. A carta de vinhos é adequada, havendo
respostas e harmonizações para todos os pratos.
Do que provei e degustei, rendi-me ao gaspacho do Lapa Palace com gambas
(€16), muito suave e com uma acidez bem controlada; Sopa de ervilhas da
época com lavagante (€16), esta quente mas igualmente suave e o
lavagante fantástico, o lombo de borrego com abóbora e aroma de café
(€27), verdadeiramente fantástico, e por fim o meu preferido, o atum
fresco marinado com abacate picante, crocante, salada de ervas e
clementina fresca (€14).
O jovem chefe Hélder Santos com a colaboração do chefe Pimenta estão de
parabéns, e penso que uma visita a este restaurante só vai beneficiar e
alargar os conhecimentos gastronómicos dos comensais nacionais e
internacionais.
No dia seguinte e depois de um fantástico dia na piscina, optei não
almoçar no bar de apoio à piscina, e subir as escadas, para um novo e
magnífico repasto na varanda do restaurante Lapa.
Repeti o gaspacho, e comi as gambas "al allijo" (€14), que novamente
eram uma ode à boa gastronomia, terminei doce com um belo tiramisú,
herança certamente do anterior chefe italiano.
Deu tempo para visitar mais uns quartos, e dos 109 que compõem o hotel,
além do que fiquei, mais dois ficaram para a memória: o Royal Room e a
famosa Tower Room. Ambos decorados com peças de época e diferentes
estilos, desde o Séc. XVIII, passando pela Arte Deco, e algumas raras
peças dos dias de hoje. O primeiro, praticamente todo em madeira e
verdadeiramente espaçoso, retrata os encantos dos tempos palacianos, com
os seus altos e trabalhados tectos. O segundo, mais romântico, com
acesso directo ao torreão do palácio, onde a vista se confunde com os
sonhos.
Fazer férias é uma opção, mas este hotel oferece muito mais, experimente
dar um presente ao seu estado de espírito e reforce as suas energias,
procurando algo mesmo ao lado de casa.
Porque mesmo dentro da cidade, está muito longe do stress que rotulamos
numa capital.
Eu fui, descansei e saí reforçado, e a semana até foi mais fácil.
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